Leitura: relações raciais nas formas de comunicação contemporâneas

AUTOR: Angela Maria da Costa e Silva Coutinho, Professora titular no Instituto Federal do Rio de Janeiro

 

Em outras palavras, a maioria dos membros dos grupos dominantes aprende a ser racista devido às formas de texto e de fala numa ampla variedade de eventos comunicativos. (TEUN A. Van Dijk , 2015, p. 15)

Minha proposta é que possamos percorrer imagens feitas por traços fotográficos e por palavras, perceber suas sugestões e compreender que a mente reconhece significados que já foram inscritos em outros textos, com outras combinações. É nesse sentido, o de surpreender o momento do julgamento, que traço minha estratégia para pensar possibilidades de nos esforçar para fortalecer o olhar, a fim de ler as representações raciais que estão ao nosso redor, às quais temos acesso pelos modos de expressão das ciências e de meios de comunicação.

Mikhail Bakhtin, ao tratar de questões de enunciado e de leitura, aborda o caráter dialógico da comunicação. “Ser significa comunicar-se dialogicamente. Quando termina o diálogo, tudo termina”. (citado por Stam, 2000, p. 72). Essa noção de dialogismo é expressa de maneira recorrente em sua obra, confirmando-se, a título de exemplo, com a declaração: “Por toda parte ouço vozes e as relações dialógicas entre elas”. (idem). Com apoio em visões dessa natureza teórico-literária e auxiliada pela Semiótica, postulados de Análise de Discurso e de Teorias da Comunicação, encorajo-me a experimentar leituras que contribuam para uma discussão de representações de pessoas, grupos humanos, lugares veiculadas em mensagens verbais e não verbais em diferentes suportes propiciados pela tecnologia contemporânea. Tal abordagem visa a refletir acerca das referidas mensagens, por meio da exploração de seus possíveis significados e de suas sugestões, interrogando declaradas intenções discursivas postas em tensão com a memória social e cultural dos leitores atuais. Portanto, visa-se a dar tratamento interpretativo às mensagens, a empreender leituras possíveis, pela via dos critérios de economia, de recepção e de associação de modelos de discursos.

Há um expressivo crescimento, nessas primeiras décadas deste milênio, do interesse em aproximar uma quantidade muito maior de pessoas dos diálogos referentes à construção da imagem dos cidadãos negros e dos efeitos dessa construção para as relações sociais. Foi criada a lei 10639 no ano de 2003, cujo centro de interesse são as relações inter-raciais, ensejando o conhecimento das culturas africanas e afro-brasileira na educação. Iniciativas de caráter acadêmico procuram problematizar o fenômeno do racismo e debatê-lo em seminários e simpósios. Ampliaram-se os cursos de pós-graduação integralmente direcionados ao estudo da complexidade das matrizes raciais e suas correlações culturais, históricas, políticas e econômicas. Nos meios de comunicação, especialmente nas redes de tevês públicas e de cultura, veiculam-se documentários, filmes ficcionais, novelas realizadas por autores africanos e referentes à realidade de países da África. Consequentemente, são mais numerosas, nos dias de hoje, as produções que remetem à reflexão qualificada sobre esses assuntos e, dessa forma, tornam mais fortalecidas, mais visíveis e renovadas as demais maneiras de militância e asseguram continuidade à luta pela igualdade racial empreendida desde os séculos anteriores.

Muniz Sodré (2004) discute um mal-estar civilizatório escamoteado pela socialização “irradiada ou teleirradiada operada pelos meios de comunicação” que, segundo ele, apoiando-se em ideias freudianas, é uma “das dificuldades ligadas à natureza da cultura e resistentes a qualquer reforma”. (p.180).

A abstração violenta (com relação à vicissitude territorial) da montagem industrial dos meios de comunicação contribui para o reforço de papeis e estereótipos presentes na memória coletiva da sociedade tradicional. Novos tipos de discriminação terminam superpondo-se às formas tradicionais de exclusão do outro (o estranho, o migrante), geralmente enfeixadas na denominação de “racismo”. Aparecem, assim, formas inéditas de racismo ou “neo-racistas”. Targuieff menciona três operações fundamentais, três deslocamentos dos conceitos de base racista desde o início dos anos 1970: a) raça passa a ser “etnia” ou “cultura”; b) desigualdade passa a chamar-se diferença; c) a heterofobia dá lugar à heterofilia (Targuieff,1988, p.14, citado por Sodré, 2004, p.180)”.

Observando-se e analisando-se situações e práticas nas relações sociais cotidianas contemporâneas, no Brasil, não é difícil interpretar que existe tensão entre um discurso de hipervalorização do outro e indicações de espaços e códigos simbólicos em que é permitido a esse outro representar-se e expressar-se. Constata-se uma concepção de “diferente” concebida a partir de um centro irradiador de forma, de ética, de gosto distante dos sentidos encontrados em discursos conscientes que legitimam as diferenças, o contato com o desconhecido e com a latência, comprometidos com o entendimento da complexidade dos grupos humanos, interessados no reconhecimento de seus aspectos genuínos. Dentre as indicações citadas, pode-se destacar, por exemplo, uma circunscrição e diferenciação de pessoas nos espaços de lazer e de consumo das grandes cidades. As concentrações humanas das zonas periféricas preenchem um cenário de luxo e de cor bastante diferente da composição formada nas zonas não periféricas e, muito raramente, há a confluência desses grupos. Dir-se-ia que o carnaval propicia uma significativa aproximação, mas vale também a constatação de que essa aproximação está limitada a uma espécie de convivência virtual e na qual as pessoas se agrupam com os seus iguais, guarnecem-se com suas próprias realidades, vivenciam o momento carnavalesco segundo os princípios de suas diferentes formas de ser e de estar em sociedade. Portanto, mesmo no carnaval, não se diluem as diferenças.

Assim, indagando-se sobre as formas de integração do diferente (o estrangeiro, o migrante, o negro), o Ocidente não consegue esconder, já nos modos como formula a questão, que só concebe a diferença como um “diferencial”, isto é, como algo a ser integrado de cima para baixo no funcionamento de um sistema de valores que se impôs na História pela força de sua capacidade de acumulação (o capital) e de suas realizações tecnocientíficas. Ou seja, toda diferença na modernidade contemporânea só se interpreta como “diferença de valor, logo como hierarquia explícita (sociedades tradicionais) e implícita (sociedades modernas, que vivem sob um céu de valores individualistas e igualitaristas)” (Targuieff, 1988, p. 17 citado por Sodré, 2004, p. 181).

Façamos, pois, leituras possíveis de representações raciais e culturais materializadas por estruturas discursivas em linguagem verbal e em linguagem não verbal, veiculadas em textualizações acessíveis à recepção pelos meios de comunicação de massa, quer sejam em versos da música popular, em notícias de jornais ou em imagens televisivas, a partir das quais são potencializados e popularizados juízos e comportamentos .

Representações discursivas verbais na música popular

Pra que discutir com madame ?

Autoria de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa, 1945. (Em: Dicionário Cravo Albin da Música popular brasileira. Disponível em: http://dicionariompb.com.br. Acesso em 19/11/2016.

O título do poema musical suscita hipóteses interpretativas relacionadas ao sentido do signo “madame”, associando-o a uma personagem cujo lugar de fala se relaciona a outros sentidos que traduzem poder hierárquico, relações entre superiores e subalternos. A expressão “discutir com madame” com entonação interrogativa induz à ideia de denegação, à exteriorização de valores menos individuais que sociais e à recusa de um diálogo que se deduz ser infrutífero no decorrer dos versos. Na primeira estrofe, reforça-se a representação de uma unilateralidade centralizadora, por meio da reiteração do signo verbal “dizer” de entonação afirmativa, em “Madame diz que a raça não melhora/ Madame diz que o samba tem pecado/ […] Madame diz que o samba tem cachaça, mistura de raça, mistura de cor/ Madame diz que o samba democrata é musica barata sem nenhum valor/ Vive dizendo que samba é vexame. Nesses dizeres, frutos de um imaginário social construído com base em valores hierárquicos, conforme refletimos anteriormente, flagra-se, também, o acontecimento, segundo um dos postulados da análise de discurso, ancorada na relação da estrutura da palavra com suas significações e sua irradiação, seu lastro no tecido social. Portanto, uma personagem prestigiada, uma madame, a patroa, (antítese da empregada, de uma serviçal), em uma sociedade marcada pela meritocracia e pelos valores de mercado, tem uma voz acusatória, uma fala pretensamente indiscutível, assim como se apresenta representante de uma classe pretensamente superior.

Discutamos, então… Em que parâmetros se pautam suas acusações? Pode-se remeter aos sentidos possíveis do verso a seguir: “Madame diz que o samba democrata é musica barata sem nenhum valor.” Colocando-se em destaque o signo democrata, vê-se que este está empregado em sentido pejorativo, levando-se em conta o plano enunciativo da sentença. Ao qualificar o samba democrata, o enunciador (uma voz de uma classe), emite juízos de valor que expressam, de modo explícito, o sentido de democracia que deseja transmitir ao receptor. Magistralmente, o poeta constrói um enunciador conservador que revela idiossincrasias, como já foi dito, muito mais de um grupo do que de um indivíduo, caracterizando-os (o grupo e o indivíduo) por meio da linguagem, ao colocar em sua fala fórmulas discursivas, ou sejam, sínteses conceituais esclarecedoras dos jogos de poder da linguagem, mas que, na letra do samba, serão refutadas na segunda estrofe.

As fórmulas discursivas são objeto de estudo da análise de discurso e, segundo Motta e Salgado (2011)

Se pensarmos que toda síntese recobre articulações forjando uma unidade complexa, heterogênea, híbrida, entenderemos que fórmulas como slogans, ditados e frases feitas, entre outras, embora pareçam ser territórios de apaziguamento, são, ao contrário, posicionamentos que denunciam a rede de disputas em que se inserem e de que revelam. […] Todo dizer é um movimento e, quando cristalizado, faz-se nó de uma rede – não um ponto final, não um ponto isolado, mas ponto nevrálgico, lugar estratégico na dinâmica histórica que o institui e salienta. E tal “saliência” tem a ver com as polêmicas em foco numa dada comunidade discursiva, com as crenças que as sustentam, com os discursos que as alimentam e que podem também transformá-las. Assim é que toda fórmula discursiva comporta uma densidade histórica que se presentifica na sua circulação, apoiada em pré-construídos e voltada a novas construções. (p.1)

A segunda estrofe é uma resposta irônica à sentença que enseja uma ordem impositiva, igualmente em tom de ironia, enunciada na primeira: “Vamos acabar com o samba, madame não gosta que ninguém sambe”. A ironia se consuma com a evocação aos sentidos do “carnaval”, e do “bloco de morro” relacionados aos sentidos de “cantar ópera” e “cantando concerto”. Prossegue a crítica com o juízo do enunciador dirigido ao discurso conservador: “Madame tem um parafuso a menos/ Só fala veneno meu Deus que horror/ O samba brasileiro democrata/ Brasileiro na batata é que tem valor.” O sentido da expressão “samba brasileiro democrata” é alterado, relativamente ao da primeira estrofe e neste novo sentido a ideia de democracia se justifica como inclusão, diversidade, diálogo, multiplicidade, legitimidade e outros valores que contemplam a complexidade da formação do povo brasileiro. A recepção dessa música, desde o ano de sua criação, 1945, tem sido notável. João Gilberto fez apresentações em festivais fora do Brasil, notadamente no festival de jazz de Montreaux, gravou-a em disco, ao vivo, em Tokyo , além de outras regravações feitas no Brasil. A cantora Teresa Cristina e o cantor Diogo Nogueira também contribuem para manter a atualidade desses versos musicais com suas gravações.

Para concluir a leitura do poema musical de Janet de Almeida, importa analisar a maneira como foi feita a menção à raça no primeiro verso da primeira estrofe: “a raça não melhora”. Nas visões contemporâneas orientadas pelas ciências humanas, raça é construção social, epíteto, nesse contexto poético-musical de grupo de negros. Na percepção dos estudos do racismo estrutural, é um referente naturalizado pela sociedade de valoração constrangedora apontado para os negros. Seus sentidos gravitam em discursos, a maior parte deles, que distinguem um “outro” de cor de pele diferente da pele branca; historicamente identificado como nascido ou criado fora das esferas hegemônicas de poder; como sobrevivente de sistemas políticos e sociais opressores; como marcado por ocorrências discriminatórias diversas. É possível afirmar que construções textuais que referenciam tais diferenciações, facilmente, aprofundam relações de superioridade entre indivíduos e grupos.

Ainda segundo Sodré (2004)

As representações (em sentido lato, englobando teorias e discursos) são fundamentais na questão do relacionamento com a alteridade, porque fornecem o quadro de mediação entre um sujeito e o outro. A apreensão da identidade própria e do outro passa por mecanismos perceptivos, estruturados pelas representações, que constituem o psiquismo do sujeito. Os estigmas do outro, manejados pela percepção racista, originam-se em representações socialmente construídas. (p.184)

Uma pesquisa coordenada por Teun A. van Djik resultou em publicação de artigos que dão conta de expor estudos acerca de racismo e discurso na América Latina. Nesse livro, intitulado Racismo e discurso na América Latina de 2015, podem ser lidos os resultados das investigações de pesquisadores de oito países latino-americanos, tais como a Argentina, o Brasil, o Chile, A Colômbia, a Guatemala, o México, o Peru e a Venezuela. O coordenador declara que dentre seus objetivos está a percepção de um histórico racismo contra indígenas e pessoas de descendência africana, constituindo-se esse comportamento racista um grande problema social. Segundo ele, os europeus brancos que vieram para o continente americano, seguiram os passos de seus concidadãos e implantaram a dominação e a supremacia de seu grupo étnico. “Nesse sistema de dominação, os não europeus (Outros) foram sistematicamente segregados e tratados como inferiores, uma ideologia que serviu como legitimação da escravidão, da exploração e da marginalização” (p.11). Especificamente, no que concerne ao binômio discurso e racismo, van Dijk (2015) pontua que este também é resultado das interações nas sociedades multiétnicas.

Já que o racismo não é inato, mas aprendido, deve haver meios para esse processo de aquisição ideológica e prática. As pessoas aprendem a ser racistas com seus pais, seus pares, (que também aprendem com seus pais), na escola, com a comunicação de massa, do mesmo modo que com a observação diária e a interação nas sociedades multiétnicas. Esse processo de aprendizagem é amplamente discursivo, isto é, baseado na conversação e no contar de histórias diárias, nos livros, na literatura, no cinema, nos artigos de jornal, nos programas de tv, nos estudos científicos, entre outros. Muitas práticas de racismo cotidiano, tais como as formas de discriminação, podem até certo ponto ser aprendidas pela observação e imitação, mas até mesmo estas precisam ser explicadas, legitimadas ou sustentadas discursivamente de outro modo. Em outras palavras, a maioria dos membros dos grupos dominantes aprende a ser racista devido às formas de texto e de fala numa ampla variedade de eventos comunicativos. A maior parte do que os grupos dominantes brancos “sabem” ou acreditam sobre etnia dos Outros foi, portanto, formulada, mais ou menos explicitamente, em inúmeras conversações, histórias, reportagens de jornais, livros didáticos e discurso político. É também sobre essa base que as pessoas formam suas próprias opiniões e atitudes, e, a menos que haja boas razões para desviar do consenso do grupo, a maior parte dos membros reproduzirá o status quo étnico e adquirirá as ideologias dominantes que os legitime. Nota-se, entretanto, que esse processo não é automático nem determinante: cada membro de um grupo específico tem uma relativa liberdade de ignorar parcial ou totalmente as mensagens dominantes ou suas ideologias subjacentes e formar opiniões alternativas, procurar diferentes atitudes entre os grupos de resistência, desenvolvendo, portanto, uma ideologia alternativa, não racista e antirracista. (p.15)

Na introdução do livro, o pesquisador reflete acerca dos modos pelos quais o racismo é operado por meio de textos e conversas, em cada um daqueles países da América Latina e conclui que os discursos políticos oficiais sobre as populações indígenas são discursos racistas e recaem de maneira severa sobre as mesmas, principalmente, onde estas formam amplas maiorias ou minorias. A respeito do Brasil, compara-se a discriminação dos homens de origem africana aos originários das populações indígenas. “Os primeiros são discriminados discursivamente de várias maneiras, especialmente também em termos de delinquência, mas geralmente reconhecidos como parte da sociedade.”

As populações indígenas costumam ser simplesmente ignoradas ou associadas com distância geográfica e atraso ou primitivismo, como se vivessem em “outro tempo”, consideradas até mesmo uma raça “menor” em certos livros didáticos e conversas racistas. (p.24)

Representações Discursivas na Mídia Jornalística

Reprodução de racismo

A cena acima esteve nos meios de comunicação de massa durante um tempo considerável, foi veiculada tanto nos jornais convencionais quanto nos suplementos editados na Internet e nas emissoras de televisão. Trata-se do flagrante ataque com ofensa racista a um goleiro no estádio de futebol. Naquela ocasião, o grupo imenso de torcedores formou um coro que desferiu as ofensas. A torcedora foi enquadrada nas câmeras de uma emissora de tv e daí por diante passou a ser uma personagem da agenda midiática, protagonizando narrativas jornalísticas relacionadas ao racismo.

‘Não sou racista’, diz Patrícia Moreira, que pede ‘perdão’ a goleiro Aranha.

Torcedora foi flagrada chamando o goleiro Aranha, do Santos, de macaco.
Polícia investiga como caso de injúria racial; jovem depôs na quinta.

Pouco mais de uma semana após ser flagrada pela TV chamando o goleiro Aranha, do Santos, de macaco, Patrícia Moreira quebrou o silêncio e concedeu entrevista coletiva nesta sexta-feira (5), em Porto Alegre. Chorando muito, ela pediu desculpas ao jogador e ao Grêmio. Foi a primeira manifestação oficial dela após o caso. Acompanhada do advogado, a gremista chegou por volta das 12h15 ao local. “Perdão de coração. Eu não sou racista. Perdão. Perdão. Peço desculpas. Aquela palavra macaco não foi racismo de minha parte, foi no calor do jogo. O Grêmio estava perdendo”.

(Disponível em: globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/ 2014/09. Acesso em 19/11/2016)

Essa situação de duplicação de discurso pode ser lida de acordo com o que van Dijk reflete a respeito do papel das elites simbólicas.

Se o racismo é amplamente aprendido e reproduzido pelo discurso dominante, e se tal discurso é amplamente acessível apenas por tais elites simbólicas, como os políticos, jornalistas, escritores, professores e pesquisadores, todos de raça branca, devemos concluir que a forma contemporânea mais eminente de racismo são as elites simbólicas brancas. Isso pode parecer contraditório quando assumimos que é precisamente essa elite que geralmente se autodefine como a mais liberal, a mais progressista, a mais cosmopolita e a mais antipreconceituosa.(p.16)

Revendo a argumentação de Sodré (2004), penso ser apropriado um diálogo com as visões discursivas expressas anteriormente. O sociólogo da Informação trata de “comunidade racista”, de “virtudes civilizatórias brancas”, de “consciência racista individual”, de “grupo histérico” e de “grupo colonial interno”. Todas essas formas discursivas fazem parte do esforço intelectual de construção de estruturas de linguagem que possam dar conta do entendimento dos fenômenos relacionados à complexidade das relações raciais e suas elaborações representativas, tanto simbólicas quanto materiais. Assim, uma comunidade racista se nutre da memória afetiva das virtudes civilizatórias brancas. Suas referências são as experiências coloniais dos países europeus, mantidas nas vozes que se atualizam em livros, filmes, monumentos, museus, relatos escritos e orais, vozes que sussurram aos indivíduos uma suposta verdade da “raça”. O desdobramento desse argumento vai ao encontro dos sentidos atribuídos à expressão consciência racista individual, assemelhada ao que a psicanálise denomina de grupo histérico que, por sua vez, fantasia, inconscientemente, integrar uma coletividade com a qual se identifica. Essa coletividade com a qual o histérico se identifica, “assume, no caso do racismo, a figura de um grupo colonial interno, recortado na História, que serve à ocultação da presença do diferente da identidade própria.” (p. 185)

A despeito de todo o mal estar enfocado até aqui, deve-se reconhecer que é histórico, no Brasil, a resistência aos modelos discriminatórios de relações interpessoais, destacando-se os ataques aos mitos da cordialidade entre superiores e subalternos na esfera social e à democracia racial no âmbito das relações inter-raciais. Silva e Rosemberg (2015) recordam que o mito da democracia racial é questionado desde os anos 1950, embora se reconheça o final da década de 1970, como o período de maior visibilidade do ativismo, empenhado em apontar as desigualdades raciais no que concerne ao acesso a bens materiais e simbólicos, a interpretar tais desigualdades como expressões do racismo estrutural e ideológico e a propor políticas para suplantá-las.

O termo “racismo” foi introduzido no Brasil apenas no final dos anos 1970, período em que se constitui nova organização do movimento negro: o Movimento Negro Unificado. […] A partir do final dos anos 1990, articulou-se um forte movimento de reivindicação por políticas de ação afirmativa para negros (e indígenas). A administração Luiz Inácio Lula da Silva criou, pela primeira vez, uma Secretaria especial de Promoção da Igualdade Racial com estatuto de ministério. (p.79).

No referido artigo, Silva e Rosemberg discutem o lugar do negro e do branco na mídia, tratando de literatura, de imprensa, livro didático, cinema, literatura infantojuvenil e televisão. As sínteses expostas nos quadros com os resultados das análises mostram um retrato dos cidadãos negros brasileiros ainda pintado com traços estereotipados. “A relativa continuidade histórica das fontes permite apreender a permanência, em jornais contemporâneos, de estereótipos detectados nos jornais do século XIX (Schwarcz, 1987).”

Lição de resistência

Em ato realizado no centro da cidade para lembrar a abolição da escravidão, militantes reivindicam a adoção de cotas raciais na USP. No dia 20/06, haverá outra manifestação em frente à Reitoria (foto: Comitê Contra o Genocídio da População Negra)

A imagem acima foi veiculada nos principais jornais das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, em 2014, quando se debatia e se polemizava sobre a adoção das cotas raciais nas universidades, nos concursos públicos e em escolas federais. Essa medida já estava em vigor em um número considerável de instituições públicas, mas as opiniões divergiam, como ainda divergem até os dias de hoje, não somente entre os brancos, mas também entre os negros. Apesar das dissensões, no entanto, essa ação afirmativa continua sendo a medida que melhor oportunizou ao jovem brasileiro, negro, estudante de escola pública uma relativa, mas segura promoção. Foram derrubados os argumentos quanto à impossibilidade de sua permanência e conclusão, propiciadas, sem dúvida, por estratégias de acesso a bolsas, auxílios, integração em grupos de pesquisa, participação em projetos de Iniciação Científica, submissão para conquista de estudos fora do país, como no caso do programa Ciência sem Fronteira e outros programas de pós-graduação no exterior. Relativamente à adoção de cotas raciais, Silva e Rosemberg (2015) levantaram destaques da imprensa que, como previsível, retrataram o conservadorismo de um jornalismo indiferente à promoção de pessoas quaisquer que sejam, muito mais indiferente e descompromissada em se tratando de pessoas negras.

Borges (2003) efetuou uma análise de matérias publicadas no jornal Folha de São Paulo , durante 2003, relativas ao debate sobre cotas para negros no ensino superior. A conclusão da autora foi a de que os editoriais que tratam da proposta de cotas são guardiães do mito da democracia racial. (Borges, 2003: 252): “Com um tom marcadamente de crítica, esses editoriais avaliam as políticas de cotas, realçam as distorções que elas provocam e deixam um ensinamento: a saída para as desigualdades ‘sociais’ na educação e a escola pública de qualidade para todos” (Borges, 2003:246).

Nos dias atuais, são dignos de destaque um número significativo de ações e de publicações referentes ao combate de discursos racistas e suas práticas cotidianas no meio social. Cito como exemplo duas dessas iniciativas.

A criação dos NEABIS: Núcleos de estudos afro-brasileiros e indígenas.

A circulação do Dossiê Mulheres Negras, do IPEA, disponível na Internet:

retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil, organizado por Mariana Mazzini Marcondes, Luana Pinheiro, Cristina Queiroz, Ana Carolina Querino e Danielle Valverde.

Tenho a impressão de que a insistência em se formular leituras e construções discursivas cada vez mais globalizantes propiciam a permanência do histórico modelo de superioridade, que, nos dias de hoje, já deveria estar esvaziado, por ser ridículo e sem outro fundamento a não ser o da exploração.

O modelo europeizado e americanizado de sociedade, branco, masculino e farto de bens materiais industrializados, sem sombra de dúvida, provoca instabilidade, à medida que bens materiais se tornam objeto de desejo. Então, parece, que quem não os possui passa a não se empenhar para conquistar todas as outras espécies de bens – como o conhecimento dos fenômenos, a criação artística, a apropriação dos significados simbólicos, a compreensão da justiça –, enquanto não alcançar aqueles bens materiais. Essa instabilidade afeta a atenção que deveria ser dedicada aos bens afetivos, à pluralidade dos bens culturais, à herança dos valores sociais.

Finalmente, creio que o ato de reforçar o olhar para a compreensão das matrizes africanas e suas representações atuais, selecionadas e interpretadas por nós mesmos, é uma hipótese que pode render melhor proveito na nossa luta para sermos representados de maneira não estereotipada, nem por meio de conceitos conotativos de inferioridade. Precisamos nos representar.

Fico eu pensando no modo poético que   Ondjaki (2012) escritor angolano que vive no Rio de Janeiro, concebeu para expressar a complexidade do mundo, fixando o olhar de seus personagens nas criações e nas traduções de um fértil quintal.

A Isaura dá nomes de presidentes aos bichos do quintal dela, e porque são muitos bichos, ela sabe muitos nomes de presidentes. Podem ser nomes também de alguns que já morreram ou mesmo outros que não foram presidentes mas pessoas assim importantes.

O gato dela se chama Ghandi, acho que era um senhor tipo indiano ou o quê. O cão se chama Amílcar Cabral. A lesma é Senghor, os gafanhotos são Samora, Mobutu, Khadafi, os sapos se chamam Raúl e Fidel. Parece que também deu nome aos passarinhos mas nunca consegui decorar a lista toda.

Agora é que me lembrei, há um papagaio chamado Joâo Paulo Terceiro, filho do falecido jacó João Paulo Segundo que tinha morrido na boca do próprio Ghandi. É que o Ghandi, antes não se chamava Ghandi se chamava Tátecher! Só depois de comer os papagaios é que lhe cortaram os tímbalos e ficou mais calmo a miar devagarinho e a não arranhar ninguém. […] ( 2012, p. 15-16)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DIJK, Teun A. van. Racismo e discurso na América Latina. Traduzido por Fernando de Moraes Gebra. São Paulo: Contexto, 2015, p.7-24

MOTTA, Ana Raquel e SALGADO, Luciana. (Organizadoras). Fórmulas discursivas. São Paulo: Contexto, 2011.

ONDJAKI. A bicicleta que tinha bigodes. Rio de Janeiro: Pallas, 2012.

SILVA, Paulo Vinícius Baptista da e ROSEMBERG, Fúlvia. Brasil: lugares de negros e brancos na mídia. Em: DIJK, Teun A. van. (Organizador). Racismo e discurso na América Latina. São Paulo: Contexto, 2015, p. 73-112.

SODRÉ, Muniz. A abominação do outro. Em: HOHLFELDT, Antonio e GOBBI, Maria Cristina. (Organizadores). Teoria da Comunicação:antologia de pesquisadores brasileiros. Porto Alegre: Sulina, 2004.p. 179-200.

STAM, Robert. Bakhtin: da teoria literária à cultura de massa. Tradução de Heloísa Jahn. São Paulo: Ática, 2000.

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