Quem essa negra pensa que é?

Uma mulher negra no poder incomoda muita gente.

Trabalho de Conclusão de curso (2016) apresentado no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro – Campus São Gonçalo, como pré-requisito para obtenção do título de Especialista em Ensino de Histórias e Culturas Africanas e Afrobrasileira.

Orientadora:

Profª.Drª.Ângela Maria da Costa e Silva Coutinho

RESUMO

Este é um trabalho de conclusão de curso que tem por objetivo problematizar as questões relacionadas à mulher negra e seu lugar social. O incômodo que essa mulher negra gera, quando se destaca e sai do lugar convencional estabelecido pela tradição da sociedade patriarcal, ou seja, quando rompe convenções e expectativas oriundas dessa tradição, atingindo patamares “pertencentes” às mulheres ou homens brancos. O estudo é desenvolvido a partir das orientações referentes à leitura dos discursos, leitura essa aplicada aos casos em que a mulher negra é discriminada e constrangida por causa de sua cor e raça. Explora-se, ainda, as representações femininas na sociedade atual em sua diversificada competência.

Palavras-Chave: mulher negra, discurso racista, lugar social, poder, representatividade

ABSTRACT

The present study analyses black women and their social place. The discomfort caused by them when a social or professional high position is reached. This bother is caused because breaks with white people expectative and conventions. This study is developed referencing hater’s speech used to decriminalize black women. Also, is explored in this study, black women representations in Brazilian society and their competence.

Keywords: Black women. Discrimination. Hate’speech . Social place. Representativity.

1. INTRODUÇÃO

1.1 Apresentação

É muito comum ouvir a pergunta “Quem ele pensa que é?” para demonstrar repúdio por alguém que essa pessoa julga como “inferior”, mas que supostamente se encontraria “fora do seu lugar”, numa posição diferente do senso comum, como se fosse “superior” às demais. Essa pergunta poderia até ser entendida como “normal”, se partíssemos do pressuposto de que todos são iguais, ou deveriam ser iguais, independentemente de credo, raça ou cor. Todavia a questão assume ainda outro caráter quando se refere a uma mulher negra que ocupa um lugar entendido como de poder. Isso a resgata, a princípio, do lugar que é então “permitido” e a sobrepõe às estatísticas vigentes na sociedade brasileira.

Mas, qual seria o lugar da mulher negra nos espaços sociais? Os espaços independem de limites físicos, a espacialidade social está intrinsecamente ligada à espacialidade individual, e esta, depende de uma série de situações que definirá o seu limite.

A espacialidade assim definida não é aquela que deriva da pronta parametrização da distância entre limites, mas é situacional, incluindo nossas tarefas, expectativas e fobias, polarizando-se para atingir certas finalidades. Os lugares do espaço, diz o filósofo, inscrevem ao redor de nós o alcance variável de nossas visadas e de nossos gestos. Dependente de nosso tempo interno, esse espaço corporal é eminentemente expressivo, sendo uma natureza marcada por nossos valores culturais, crenças e sonhos. (PALLAMIN, 2007, p. 181-193)

A situação em que a mulher negra é inserida ao chegar a uma posição de poder desperta fobia e desfaz as crenças, valores e sonhos da fronteira do visível, da normalidade, ou seja, dos brancos. E como ocupar esse lugar é algo iminentemente expressivo, é visto de várias formas racistas e traduzido em discursos preconceituosos pela sociedade.

Mas qual é o “lugar permitido”? O negro no Brasil sempre foi visto à margem da sociedade, até mesmo porque sua condição atual foi um produto de um sistema historicamente condicionado para que esse pensamento sobrevivesse até hoje.

O ex-escravo e seus descendentes saíram espoliados da escravidão e despreparados para o trabalho livre, incapazes, enfim, de se adequar aos novos padrões contratuais e esquemas racionalizadores e modernizantes da grande produção agrícola e industrial, tornando-se doravante marginais por força da lógica inevitável do progresso capitalista. Quanto ao elemento nacional livre, formado em sua maioria de negros e mestiços pobres e que durante toda a escravidão vivera à margem da grande produção exportadora, ele continuaria “vegetando”, marginal e dispensável, a não ser em regiões de fraco desenvolvimento econômico aonde não chegaram imigrantes. É que também ele sofreria do mal da “herança da escravidão”, acostumado às relações patriarcais de dependência servil e entregue em sua maioria a atividades de mera subsistência. (AZEVEDO, 1987, p 18).

O lugar permitido para a mulher negra, historicamente, é à margem, quaisquer que seja a esfera social abordada. A condição de sempre estar em um lugar previsível, em um lugar comum, torna a ascensão da mulher negra praticamente intolerável aos olhos da sociedade. O desenvolvimento da mulher negra é inversamente proporcional ao poder exercido pelos organismos sociais tradicionais. Quanto à posição na hierarquia da sociedade brasileira, são as mulheres negras a base piramidal, seja no mercado de trabalho ou na vida social em geral. A questão da mulher negra não se adere somente a uma questão de gênero, é uma questão de raça e sexualidade. Segundo Sueli Carneiro “é preciso enegrecer o feminino”, uma vez que o feminismo trata somente da questão de gênero. Os problemas das mulheres brancas, em tese, serão os problemas das mulheres negras, contudo os problemas das mulheres negras não serão os problemas das mulheres brancas.

Quando falamos do mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a proteção paternalista dos homens sobre as mulheres, de que mulheres estamos falando? Nós, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas…Mulheres que não entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar! (CARNEIRO, 2014, p. 1-2)

Segundo Lélia Gonzalez[1], o feminismo no Brasil padecia de duas dificuldades para as mulheres negras: de um lado, o viés eurocêntrico do feminismo brasileiro que omitia a centralidade da questão de raça nas hierarquias de gênero presentes na sociedade, universalizava os valores de uma cultura particular (a ocidental) para o conjunto das mulheres, sem as mediações que os processos de dominação, violência e exploração que estão na base da interação entre brancos e não brancos constituía-se em mais um eixo articulador do mito da democracia racial e do ideal de branqueamento. Por outro lado, também revelava um distanciamento da realidade vivida pela mulher negra, ao negar toda uma história feita de resistências e de lutas, em que essa mulher tem sido protagonista graças à dinâmica de uma memória cultural ancestral – que nada tem a ver com o eurocentrismo desse tipo de feminismo.

Ao colocar a questão de gênero como uma questão social, a mulher se transformou em um sujeito político e, essencialmente, trouxe outros sujeitos e grupos particulares como o grupo de mulheres negras. O movimento das mulheres negras vem para dar relevância aos anseios e assumir e estruturar articulações para que o sujeito social mulher negra faça parte do meio social brasileiro.

É importante salientar que nesse meio social já existe, para a mulher negra, um mercado de trabalho a ser ocupado:

O fato de 48% das mulheres pretas […] estarem no serviço doméstico é sinal de que a expansão do mercado de trabalho para essas mulheres não significou ganhos significativos. E quando esta barreira social é rompida, ou seja, quando as mulheres negras conseguem investir em educação numa tentativa de mobilidade social, elas se dirigem para empregos com menores rendimentos e menos reconhecidos no mercado de trabalho. ( LIMA, 1995, p. 28)

Com relação às leituras das fórmulas discursivas, os estudos de Maingueneau (2011) referentes à aforização[2] proverbial e o feminino, apontam para o fenômeno de um conjunto de citações sem autor definido, como se pode atribuir ao caso da primeira parte do título deste trabalho, “Quem esta negra pensa que é? Segundo Maigueneau, é necessário dar atenção à proliferação dos provérbios sobre as mulheres, em contraste à escassez do mesmo fenômeno relacionado aos homens. Portanto, os homens formulam os ditames relacionados à moral, ao comportamento, à expectativa de um perfil feminino tradicional, traçado pela visão masculina.

 

CAPÍTULO 1

INEDITISMO DA MULHER NEGRA BRASILEIRA: UMA QUESTÃO HISTÓRICA

1.1. Principais profissões comuns à mulher negra no período pós-abolição

A questão do lugar da mulher negra no Brasil contemporâneo é fruto de uma história que insiste em não se desatualizar. Nos dias atuais é bastante comum encontrar mulheres negras trabalhando em casas de família como babás, domésticas, cozinheiras, lavadeiras, passadeiras etc. Segundo dossiê elaborado pelo IPEA (2013, p.74).

Segundo os dados da PNAD, havia no Brasil, em 2009, cerca de 7 milhões de pessoas vinculadas ao emprego doméstico, das quais cerca de 500 mil eram homens. A categoria de empregados domésticos é majoritariamente feminina, com cerca de 7% de homens. Entre as mulheres, a proporção de negras (21,6%) é bem maior que a de brancas (13,5%). A grande concentração de mulheres negras no emprego doméstico chama atenção dos pesquisadores desde meados do século XX.

Mas a que se devem esses dados? No período da escravidão, a mulher negra era responsável pelos afazeres domésticos e, apesar de a mulher branca ser oprimida por uma questão de gênero, nesse âmbito ela fazia parte da classe opressora, onde, de fato dava as ordens para que estas fossem seguidas pela sua mucama. Já no período pós-abolição, essas mesmas mulheres negras se viram obrigadas a continuarem fazendo esses serviços domésticos em troca de pagamento, visto que, muitas vezes, tinham que complementar a renda familiar, ou até mesmo ser a principal fonte de renda da família, uma vez que no período pós abolição era mais difícil para o homem se inserir no mercado de trabalho.

Devido a suas características (trabalho manual, não requer especializações) o trabalho doméstico passou a ser para muitas mulheres negras a única opção de sustento da família e isso se perpetua até os dias atuais. Segundo o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Econômicos), entre 2004 e 2011, a proporção de mulheres negras ocupadas nos serviços domésticos no país cresceu de 56,9% para 61,0%, ao passo que entre as mulheres não negras observou-se uma redução de 4,1% pontos percentuais, com a participação correspondendo a 39,0%, em 2011. Em todas as regiões do país, a tendência de elevação do percentual de trabalhadoras domésticas negras esteve presente, exceto para a região Norte, onde passou de 79,6%, em 2004, para 79,3%, em 2011. A região Sudeste registrou o maior aumento de mulheres negras ocupadas no trabalho doméstico no período, com o percentual correspondendo a 52,3%, em 2004, e atingindo 57,2%, em 2011. (Gráfico 1).

 

GRÁFICO 1

Distribuição das mulheres ocupadas nos serviços domésticos por cor/raça Brasil 2004 e 2011(em %)

Fonte: IBGE.Pnad

Elaboração:DIEESE

Obs: Negras=Pretas e Pardas e Não negras=Brancas, amarelas e indígenas

Apesar de ser uma profissão regulamentada, não tinha e não tem os mesmo direitos trabalhistas, equiparados às demais profissões. Somente em 1972 que a profissão de empregada doméstica foi regulamentada através da Lei 5.859, onde classificava o profissional doméstico da seguinte forma: “pessoa física que presta serviços de natureza contínua e de finalidade não lucrativa à pessoa ou à família no âmbito residencial destas” [3]. Nessa linha de raciocínio, podemos notar a segregação aos demais profissionais, já que a relação não se dá dentro de uma empresa como as demais profissões, mas sim dentro de casa, excluindo-os de alguns direitos, desvalorizando e diminuindo o prestígio da profissão.

1.2 Deveres e direitos uma questão de lugar.

 O papel profissional da mulher negra sempre esteve pautado em deveres que deveriam ser respeitados sem contestação. Regras, arbitrárias nas maiorias das vezes, eram impostas aos moldes da sociedade pós-escravista, a fim de que as mucamas, agora domésticas, fossem o modelo mais similar possível da escravidão. Estudos feitos durante a pós-escravidão, mostram que o presente não difere muito do passado onde a casa e os patrões são a classe opressora e detentora do “bem” em troca dos deveres atendidos. Sandra Grahan (1992) define muito bem os territórios, complementares e adversários, das empregadas domésticas no período transitório do pré-abolição e pós-abolição.

A casa é vista como o domínio de patrões e patroas, onde as empregadas podem encontrar proteção das mazelas urbanas, mas quase nenhum espaço de expressão independente. As amas-de-leite e arrumadeiras podiam penetrar fundo nos segredos e intimidades das famílias que serviam, mas, como outras empregadas de ontem e de hoje, seu comportamento e seu lugar no espaço doméstico estavam rigorosamente delimitados e controlados. Entretanto, a casa não era território pacificado. Aí se desenvolvia um combate difícil. Os patrões procuravam sempre ampliar as tarefas para as quais as domésticas tinham sido contratadas, estas com frequência resistiam. Muitas simplesmente abandonavam a casa e retornavam à rua. Mesmo as escravas frequentemente recusavam cooperar, não podendo ser despedidas por serem escravas, embora a venda representasse muitas vezes uma forma de punição. E se eram castigadas, amiúde fugiam. Trocavam a casa por cortiços onde dividiam apertados cubículos com empregadas diaristas, em geral lavadeiras e engomadeiras…Para os patrões, as criadas eram gente da rua, colocavam a casa em perigo até serem devidamente “domesticadas”. Feito isso, a rua podia vir a ser perigosa também para as próprias domésticas. O braço protetor do patrão nem sempre era longo, forte ou disponível o bastante para impedir a violência masculina, o abuso policial, à indigência e a insalubridade do mundo lá fora. A vida das criadas e a relação entre estas e patrões não ficaram alheias às importantes transformações que atingiriam o Rio no final do século XIX. Destacam-se a abolição da escravatura e a modernização da cidade. Se não redefiniu radicalmente o papel das escravas domésticas, a abolição estabeleceria novas bases de negociação e conflito no espaço da casa. Fosse por demissão da ex-senhora ou por deserção voluntária, a ex-escrava agora passava à rua mais facilmente. A tensão entre casa e rua sobrevive em nossos dias. Entre um território e outro, continuam a circular e combater as domésticas, que das favelas descem para o trabalho como antes vinham dos cortiços.(GRAHAN, 1992.p 237)

O inconformismo com as condições de trabalho fez com que a mulher negra se mobilizasse para conseguir ter seus direitos como trabalhadoras, não somente como empregada doméstica, mas em outras esferas, o que fez com que muitas pessoas se incomodassem com tal posição.

1.3. Preâmbulos de uma longa luta

Um embate sempre é cansativo e doloroso, para ambos os lados, contudo a luta por direitos pode ser longa e cruel. A história da mulher no Brasil sempre foi carregada de luta e sofrimento, contudo além da questão do gênero a mulher negra carrega o estigma racial e social. A mulher que briga pelos seus direitos é a mesma mulher que oprime sua empregada, que a humilha por sua cor.

Documentos que comprovem o início dessa luta são raros, uma vez que além de mulheres, são negras. É importante ressaltar que há registros, pelo menos orais, a partir do momento em que a mulher se tornou objeto de estudo e passou a ser parte concreta como sujeito da história.

No início do século XX, tendências da Escola de Annales[4] ampliou, através das ciências humanas, o campo de pesquisas dos estudos históricos, que apesar de não ter os estudos voltados à questão de gênero auxiliou na implementação de outros estudos. No momento em que estudos da assim dita Nova História[5], na metade do século XX, incluiu a mulher em estudos diversos que auxiliam o estudo da história da sociedade. Tânia Maria Gomes da Silva enfatiza essa importância quando diz:

Assim é necessário admitir que mesmo tendo mantido as mulheres fora das preocupações centrais, a Escola dos Annales, ao direcionar as pesquisas do âmbito político para o social, possibilitou estudos sobre a vida privada, as práticas cotidianas, a família, o casamento, a sexualidade etc. Temas que permitiram a inclusão das mulheres na história (SILVA, 2008.p. 224).

No Brasil, as mulheres negras começaram a se inserir no campo da militância, timidamente, no pós-abolição 1888, em movimentos e associações de negros. Segundo Domingues (2009), o período da criação das associações das “pessoas de cor” e da imprensa negra foi a primeira fase do movimento negro na República (1889 a 1937). As associações objetivavam a “mobilização e conscientização da população negra, procurando mostrar-lhe o seu valor e os seus direitos de cidadão brasileiro na nova ordem social” (Domingues, 2009, p.19). Contudo, as mulheres tinham papeis secundários servindo como auxiliares dos homens nessas associações e movimentos. Em 1989 já existiam departamentos de mulheres chamados de “Quadro de Damas”, organizações formadas apenas de mulheres, como o Grupo das Margaridas, em São Paulo, e a Sociedade de Socorros Mútuos Princesa do Sul, no Rio Grande do Sul, uma das mais antigas associações autônomas de mulheres negras que se conhece no Brasil republicano, fundada em 1908 (op.cit.).

Contudo a voz da mulher negra começou a ser ouvida na década de 1940 chamada por Domingues (2009) como segunda fase do Movimento Negro. Nesta fase, as mulheres negras mais organizadas e cientes de sua importância, fundam, em 1950, o Conselho Nacional de Mulheres Negras. Em seu discurso, na instalação do Conselho, a Dr. Maria do Nascimento[6] idealizadora do Conselho, ressaltou que a mulher negra sofria várias desvantagens sociais por causa do seu despreparo cultural, por causa da pobreza do povo negro, e de ausência adequada de educação profissional. Ela considerava a questão da cor como grande fator da “inferioridade social desfrutada pela mulher negra”. Ressaltou também que o conselho tinha como objetivo lutar pela integração da mulher negra na vida social, pelo seu “alevantamento” educacional, cultural e econômico.

Cabe ressaltar que a imprensa teve contribuição para o engedramento desse movimento. Relatos do Jornal Quilombo, mostravam que, antes mesmo da fundação do conselho, mulheres negras se reuniram em congresso nacional para tratar da regulamentação do trabalho doméstico. Segundo a notícia, o congresso, além de tratar dos assuntos econômicos, tratou de assuntos como violência moral e o desprestígio da classe que, até então, ao invés de terem carteira profissional, eram fichadas na delegacia, junto ao controle policial. Como se pode ver, a mulher negra já era historicamente cerceada de pré-conceitos que trilhariam o caminho da uma longa jornada nessa luta. Essas notícias sobre a militância das mulheres negras eram feitas a partir da coluna Fala a Mulher, escrita por Maria Nascimento idealizadora e também militante.

Mesmo tendo alcançado maior espaço e visibilidade, através da imprensa negra[7] as mulheres ainda ficavam à margem dentro das associações e movimento. A partir deste momento é que a as mulheres perceberam que para serem ouvidas seria necessário um discurso mais politizado acerca de suas reivindicações e de suas mazelas, que eram explicitamente peculiares dentro de uma questão de gênero e raça.

 CAPÍTULO 2

 A BUSCA POR UM LUGAR SOCIAL

A partir de 1970, o movimento de mulheres negras passou a ter voz ativa, alcançar outros patamares, a desempenhar um papel fundamental na afirmação da identidade negra. Mulheres negras, cientes de suas condições, passaram a se qualificar e imergir cada vez mais na militância, para que seu lugar social fosse alcançado.

2.1. Do anonimato à visibilidade

Algumas mulheres foram as pioneiras nessa busca por um lugar social e se tornaram um espelho a ser refletido nos ideais das mulheres negras. É importante salientar que essa visibilidade e inserção das mulheres negras foram feitas de forma sucinta e gradativa, uma vez que era necessário que, além de sua capacitação, ela também fosse aceita por aqueles que se sentiam detentores da superioridade da sociedade. Veremos abaixo alguns dos percalços relatados por mulheres negras, que hoje, alcançaram seu lugar de destaque.

2.1.1. Relatos

Luislinda

Certo dia, um professor pediu um material de desenho. Com muito custo, o pai de Luislinda conseguiu comprar um, meio remendado. Bastou o professor ver o material para magoá-la para sempre. Disse ele: – “Menina, deixe de estudar e vá aprender a fazer feijoada na casa dos brancos”. Ela chorou e ainda se emociona quando relembra, cinquenta e oito anos depois desse fato. Mas tomou coragem e retrucou ao professor:– “Vou é ser Juíza e lhe prender”. A primeira parte ela cumpriu. Em 1984, a baiana Luislinda Valois Santos tornou-se a primeira Juíza negra do país. Não à toa, também foi quem proferiu a primeira sentença de racismo no Brasil. Em 28 de setembro de 1993, condenou o supermercado “Olhe o Preço” a indenizar a empregada doméstica Aíla de Jesus, acusada injustamente de furto.[8]

Vanda Maria de Souza

“(…) quando chegou no final de ano, ela me levou pra fazer uma audiência no teatro Municipal, foi uma aberração, porque não tinha negra nenhuma, e havia um programa na TV Tupi, chamado a hora do Guri, ele sempre chamava as primeiras meninas. E disseram, olha tem uma menina aqui. Eu me esqueci de dizer que fui alfabetizada aos cinco anos, minha tia caçula me alfabetizou, então aprender piano foi fácil porque eu já sabia ler e escrever. E ela vai e fala pro cara no telefone, o contrarrega, “Olha tem uma menina, ela vai completar seis aninhos agora no final do ano, ela toca muito e é uma gracinha”.Há!Traga sim. Qual foi a minha surpresa, a cede da Tv Tupi era aqui no cassino da Urca, e eu cheguei lá e ninguém me botava, nessas alturas do campeonato, minha mãe comprou bordado inglês no gringo, sapato de não sei onde, para que eu chegasse aqui, e acabou o programa e eles não deixaram eu tocar. Minha mãe veio me consolando, dizendo que era porque a Capital da República e eles tinham preconceito com quem era de Niterói , mas ali algo já mexia comigo, porque minha mãe falava muito de racismo, eu não tinha clareza, mas algo me intuía, porque não era pela roupa, a minha era tão bonita quanto, e toda hora minha mãe falava, e diziam, “ Não, espera ai que já vai”.E acabou o programa, eu nem sei se este homem está vivo, Poli Filho, mas anos mais tarde,já nos anos oitenta, no dia da Consciência Negra eu fui ao programa e contei isso para ele, ele ficou, “ É mesmo?”, eu falei, é . Eu não tenho mais prova , mas aconteceu, só tenho a minha mãe, e para mim hoje, se havia alguma dúvida, não há mais. É porque eu era um negrinha, ninguém pensou que uma negrinha com cinco pra seis anos pudesse tocar piano, e eu abandonei o piano.”

Precisamos limpar o Colégio Paulo de Fronten retirando a única negra que passou neste, concurso.

Quando eu estava o admissão a escola alugou um clube,esse clube ,que existe até hoje chamado Social Ramos Clube ,esse clube não deixava passar preto.Foi um clube , assim,de grandes bailes,orquestra internacional ,ele competia em igualdade de condições com o Monte Líbano e o Sírio Líbanês ,no subúrbio. E era a elite,que eram mais ou menos libaneses ,sírios e portugueses que frequentavam e ali é uma das subidas do Morro do Alemão, esse clube.No dia de baile ,preto não podia passar ,tinha que passar pelas outras ruas ,eles não deixavam passar .Quando chegou no final do ano,a festa de encerramento dessa escola,que ela ia da primeira série primária até a admissão,e vários alunos passaram bem,vários para o Pedro II,vários pro Instituto de Educação ela vai e faz essa festa lá,e eu não fui,não iria, e meu pai chegou em casa e falou para minha mãe “Não quero minha filha nesse clube , não tem necessidade da minha filha ser humilhada”.Ai minha mãe falou “Olha você não vai porque lá não entra preto,você não vai”.A diretora, na véspera, soube que eu não ia,ai me chamou no gabinete, que era uma cozinha, esse colégio hoje é enorme, é um quarteirão, mas foi os primeiros anos dele a secretaria era uma cozinha.Ela falou assim pra mim “Você sabe que naquele horário eu estou pagando muito caro e naquele horário o dono do clube sou eu, e se eu sou dona dessa escola e deixei você se matricular, você vai na festa sim e eu vou te obrigar a ir porque quem tirou em primeiro lugar é você”.Eu tenho a foto da professora de Geografia me dando o prêmio e ai eu e minha mãe remanchamos tanto,tinha dificuldade de chegar, que parece até que foi de propósito, que quando nós entramos no clube , só tinha duas cadeiras na última fila e nós ficamos ali quietinhas.Quem mais ou menos viu nossa aproximação ficava toda hora olhando, nós duas éramos a s únicas negras, nem servente , eu não vi nem gente varrendo,preto.Aí quando vai entregar o primeiro lugar ,aí a Dona Maria Relvas , “ Há, eu pedi tanto que ela viesse,mas o nosso primeiro lugar…”,aí eu levanto. Minha turma toda bateu palma e tudo, mas o restante do colégio com aquele preconceito, isso também me marcou muito…[9]

 Zezé Motta

 Lembro que encontrei minha vizinha no corredor e ela mencionou: “Poxa você nunca mais foi lá em casa,tá de mal com minha filha Sonia?”.Respondi: “Eu ?Não! Imagina!Estou trabalhando, estudando, ainda tenho que ajudar minha mãe em casa,estou fazendo contabilidade, e ainda trabalho meio período no laboratório.Não dá mais pra passear,pra ver ninguém”.Ela perguntou: “ Você esta fazendo curso de Artes Dramáticas?Onde?”. Respondi: “No tablado”. E ela retrucou: “ Eu não sabia que pra fazer papel de empregada precisava de curso”. Naquele momento, achei que fosse a mulher mais ignorante da face da Terra que estava em minha frente, depois na pratica, quando comecei a exercer a profissão, vi que o que a mulher estava dizendo era o que ela via , quando ligava a televisão, quando ia ao cinema, ao ver fotonovela por exemplo, que , na época era comum, a mulher negra basicamente só desempenhava o papel de empregada doméstica.

Além disso, gravei um comercial pra fotografar com uns tecidos estampados. Um cliente me pagou a sessão de fotos e não pôs o outdoor na rua. Falou que o os clientes dele eram de classe média e que não iam aceitar sugestões. Bom, não foi fácil.

Certa vez, fui proibida de entrar pela porta da frente da casa de um amigo. Aí, forcei a barra com quem impedia de entrar pela porta dianteira. Já estava politizada e o questionei, dizendo: “Eu posso até entrar pela outra porta se você me explicar o porquê? Ele não sabia explicar. Apenas dizia: “ Estou cumprindo ordens, estou cumprindo ordens”. “Não quero saber das ordens que te deram. “Sou amiga do dono da casa e é por aqui que eu vou subir”. Ele, o cumpridor de ordens, era baixinho e bem desnutrido. Essa coisa de porteiros é meio que máfia, são todos do Norte e Nordeste Acho que um vai indicando o outro. Esse era bem franzino. Dei um empurrão nele e entrei pela porta da frente, só que ele desligou o elevador, e sofro de claustrofobia. Foi uma violência para mim, fiquei muito mau, chorei muito.[10]

Glória Maria

Foi quando ele fez aquele discurso “eu prendo e arrebento” – para defender a abertura (1979). Na hora, o filme acabou e não tínhamos conseguido gravar. Aí eu pedi: “Presidente, é a TV Globo, o Jornal Nacional, será que o senhor poderia repetir? “Problema seu, eu não vou repetir”, disse Figueiredo. Depois de algumas insistências, sem ter êxito, Glória corrigiu o português usado pelo presidente, que não gostou: “A senhora retire-se daqui”, disse. Glória se lembra bem: “Foi aquele bate-boca e foi ao ar. Desde esse dia, passou a me odiar. E onde eu chegava, dizia para a segurança: ‘Não deixa aquela neguinha chegar perto de mim. [11]

Yzalú

O sistema pode até me transformar em empregada, mas não pode me fazer raciocinar como criada. Enquanto mulheres convencionais lutam contra o machismo, as negras duelam pra vencer o machismo, o preconceito, o racismo. Lutam pra reverter o processo de aniquilação que encarcera afros descendentes em cubículos na prisão. Não existe Lei Maria da penha que nos proteja da violência de nos submeter aos cargos de limpeza. De ler nos banheiros das faculdades hitleristas, Fora macacos cotistas.[12]

Manifestações racistas como as descritas acima eram relatadas constantemente por mulheres que conseguiam sair do lugar comum. A mulher negra era aquela que fazia as coisas, logo eram aquelas que prestavam serviços, eram vistas como aquelas que trabalham e não como alguém que é alguma coisa. Contudo, nesse momento, a mulher negra já passa a não se satisfazer com o anonimato, passa a debater, a reconhecer e rebater o racismo “in loco”. Essa visibilidade traz uma força intensa a uma nova geração de mulheres negras que trabalham para cada vez mais se afirmarem e reafirmarem.

2.2. Quem são elas? Primeiras mulheres negras a alcançarem seu lugar de destaque

Algumas mulheres fizeram e fazem a diferença não só na construção da militância negra no Brasil, mas na afirmação estética, intelectual e pode- se dizer até mesmo moral, pois a mulher negra no Brasil era vista algo possuindo somente algum valor quando se apresentava submissamente, consequentemente não incomodando a “moral e o bons costumes” da sociedade. Nomes estes que servem como exemplo de luta a ser seguido, de participação política, militância e pioneirismo. Mulheres que deram “a cara a tapa”, para ser batida e serviram de escudo para que outras mulheres negras pudessem crescer.

Antonieta de Barros

Figura 1:Antonieta de Barros.Fonte: Portal Paulinas

Antonieta de Barros nasceu em Florianópolis, Santa Catarina, em 11 de julho de 1901. Ingressou com 17 anos na Escola Normal Catarinense, concluindo o curso em 1921.

Em 1922, a normalista fundou o Curso Particular Antonieta de Barros, voltado para alfabetização da população carente. O curso foi dirigido por ela até sua morte e fechado em 1964. Professora de Português e Literatura, Antonieta exerceu o magistério durante toda a sua vida, inclusive em cargos de direção.Antonieta de Barros notabilizou-se por ter sido a primeira deputada estadual negra do país e primeira deputada mulher do estado de Santa Catarina. Eleita em 1934 pelo Partido Liberal Catarinense, foi constituinte em 1935, cabendo-lhe relatar os capítulos Educação e Cultura e Funcionalismo. Atuou na assembleia legislativa catarinense até 1937, quando teve início a ditadura do Estado Novo.[13]

Laélia Contreiras Agra de Alcântara

Figura 2:Fonte: Secretaria-Geral da Mesa e Coordenação de Arquivo

Laélia Alcântara nasceu em Salvador no dia 7 de julho de 1923.

Em 1943 deixou o estado natal, transferindo-se para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, onde cursou a Faculdade de Ciências Médicas, diplomando-se em 1949. Seis meses após a formatura foi trabalhar no Acre, que na época contava com apenas seis médicos.

Em outubro de 1962, Laélia Alcântara disputou sem êxito uma cadeira na Câmara dos Deputados, na coligação do PTB com a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Progressista (PSP). De volta ao consultório de obstetrícia e pediatria, dedicou parte do seu tempo ao magistério, dando aulas de higiene na Escola Normal da capital do Acre, Rio Branco.

Em novembro de 1974 elegeu-se suplente do senador Adalberto Sena, na legenda do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Em março de 1981, dado o afastamento de Adalberto Sena por motivos de saúde, Laélia Alcântara tornou-se a segunda mulher a exercer mandato de senadora.[14]

Nilma Lino Gomes

Figura 3:Durante o 1º Seminário Nacional de Educação Quilombola, em 2010. Autor:Eliza Fiúza/Abr.Fonte:Winkipédia.

Nilma Lino Gomes  é uma pedagoga brasileira. Tornou-se a primeira mulher negra do Brasil a comandar uma universidade federal, ao assumir o comando da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), em 2013. Em 2 de outubro de 2015 foi nomeada pela presidente Dilma Rousseff para ocupar o novo Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, que uniu as secretarias de Políticas para Mulheres, Igualdade Racial, Direitos Humanos e parte das atribuições da Secretaria-Geral.  Permaneceu no cargo até o dia do afastamento de Dilma pelo Senado Federal.[15]

Vanda Maria de Souza Ferreira

Figura 4:Autor: Isabel Clavelin.Fonte:Site do Prêmio Abdias do Nascimento

Pedagoga, pós-graduada em História da África e Cultura Afro brasileira. Ela foi Ouvidora da Fundação Petrobras de Seguridade Social (Petros), onde criou o Comitê Pró-Equidade de Gênero, Raça e Diversidade. Vanda destacou-se em diversos conselhos estaduais e universitários, além de ocupar importantes cargos como o de Subsecretária Adjunta de Direitos Individuais, que integra a Secretaria de Estado de Direitos Humanos e Sistema Penitenciário do RJ. É a segunda Secretária de Estado negra, ao assumir a Secretaria Extraordinária de Defesa e Promoção das Populações Negras do Estado do RJ.[16]

Luislinda Dias Valois dos Santos

Figura 5:Autor: Mônica Tagliapietra..Fonte:site geledes.org.br

Nascida em Salvador dia 20 de janeiro de 1942, Luislinda foi a primeira magistrada negra do Brasil.

Estudou Teatro e Filosofia antes de se formar em Direito na Universidade Católica do Salvador (UCSAL).

Foi procuradora-geral do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), hoje Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), e mais tarde passou em primeiro lugar num concurso para a Advocacia-Geral da União (AGU).

Tornou-se juíza, em 1984, adotando o uso de colares de candomblé em suas audiências.Foi autora da primeira sentença de condenação por racismo no país, em 1993.Criou, em 2003, o projeto “Balcão de Justiça e Cidadania”, para resolução de conflitos em áreas pobres de Salvador.

Em 2009, publicou o livro O negro no século XXI.

Em 2011, foi promovida por antiguidade, a desembargadora do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) se aposentando alguns meses depois. No mesmo ano é premiada com a Camélia da Liberdade, em reconhecimento a personalidades que promovem ações de inclusão social de afrodescendentes.Em 2013, entra na carreira política ao decidir se filiar ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).[17]

Benedita da Silva

Figura 6:Autor desconhecido.Fonte: @blogdabenedita.

Deputada federal Benedita da Silva, rompeu barreiras e se tornou a Primeira negra a ocupar cargos de senadora e governadora no país.

Formada em Serviço Social, sua trajetória política começou em 1982, quando foi eleita vereadora no Rio de Janeiro. Depois conquistou duas vezes o cargo de deputada federal pelo Estado, exercendo a função a partir de 1987.

No ano de 1994, com expressiva votação, Benedita chegou ao Senado Federal. Em 1998, ela foi eleita vice-governadora do Rio de Janeiro, até que em 2002, com a renúncia do então governador, a recordista assumiu o comando do Estado.

A convite do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a recordista ainda foi ministra da Assistência e Promoção Social do Governo        Federal, entre 2003 e 2004. Em 2007, voltou a trabalhar no governo do Rio de Janeiro, como secretária de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos. Em 2010, pela terceira vez, foi eleita deputada federal.[18]

Ruth de Souza

Figura 7:Foto: Edmilsom Saldanha.Fonte:Site da revista Época.

Ruth Pinto de Souza nasce no Rio de Janeiro em 12 de maio de 1921. Por indicação de Paschoal Carlos Magno, recebe bolsa de estudo da Fundação Rockfeller e passa um ano nos Estados Unidos: na Universidade Harvard, em Washington, e na Academia Nacional do Teatro Americano, em Nova York. Participou de diversas produções,mas foi por seu desempenho em Sinhá Moça, que tornou-se a primeira atriz brasileira indicada ao prêmio internacional: o Leão de Ouro, no Festival de Veneza de 1954. Depois de atuar em radionovelas, trabalha nos teleteatros da Tupi e da Record. Em 1969 integra o elenco da TV Globo e nela se torna a primeira atriz negra a protagonizar uma novela: A Cabana do Pai Tomás, na qual divide o estrelato com Sérgio Cardoso. Há 30 anos participa intensamente da teledramaturgia da emissora.[19]

Glória Maria

Figura 8: Autor desconhecido.Fonte:site IG.

A primeira repórter negra da TV brasileira. Graduada em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), começou a trabalhar na área nos anos 70. Trabalhou para a Globo sem receber durante um ano antes de ser contratada. Primeira repórter a aparecer ao vivo no Jornal Nacional e ao vivo na TV em cores, em 1977.[20]

CAPÍTULO 3

SE FOR PARA O INCÔMODO GERAL DA NAÇÃO, DIGA AO POVO QUE FICO!

Em notada evidência e com exemplos bem sucedidos a serem seguidos, a mulher negra busca uma maior politização e, consequentemente, a ascensão. Com a meta na mobilidade social, a mulher negra passa a não mais se conformar em sua zona de conforto e, diga- se de passagem, que nunca foi tão confortável, e passou a contestar o seu lugar na sociedade. Uma das pontes para essa ascensão foi e continua sendo o Ensino Superior.

3.1. Negras e o ensino superior

Os espaços educacionais servem como meio de ascensão social às classes minoritárias, agindo, como mecanismo de promoção da igualdade. Nesse âmbito, por uma questão histórica vista anteriormente, não havia a representatividade tanto da mulher negra quanto dos homens negros nos espaços acadêmicos. A partir de 2000 o Brasil adotou o sistema de cotas, já utilizado em outros países para afirmação e promoção da igualdade, o que ajudou no processo de ingresso ao meio acadêmico. Contudo não facilitou sua permanência, não garantia sua conclusão e, por conseguinte, não deu as coordenadas de como seriam tratados os alunos negros para as múltiplas manifestações racistas dentro da universidade.

A falta de representatividade, o acesso limitado, os olhares preconceituosos sempre foram empecilhos para a entrada e permanência dos negros, em especial, as mulheres negras nas universidades.

Apesar de a mulher negra estar em maior quantidade na população, segundo dados do IPEA (Instituto de Pesquisa de Econômica Aplicada), a mesma só fica em posição superior aos homens negros dentro dos institutos acadêmicos. Em 2009, o total de mulheres, 50% eram negras e 49,3% eram brancas, indicando uma maior participação de negras, em comparação às mulheres brancas, no recorte geral da população. Contudo é importante ressaltar que o crescimento dos indicadores não se justifica apenas por mudanças nas taxas de fecundidade ou natalidade desses subconjuntos da população, mas sim pelo reconhecimento identitário, valorização e afirmação da população negra como um todo. Ou seja, a população negra começou a se reconhecer como negra e a se declarar como tal. Parte dessa mudança foi influência dos vários movimentos sociais, das políticas afirmativas, agendas públicas ligadas à promoção da etnia, busca pela igualdade e repúdio à discriminação. Nota-se que a população negra em geral começa a se aproximar da população branca a partir de 2001, tendo esse movimento mais intensificado em 2003, quando as questões étnicas de promoção à igualdade racial passa, de modo inédito, a ser institucionalizada na esfera governamental (Gráficos 2 e 3).

GRÁFICO 2

Fonte:Ipea et. al.(2011).

Elaboração das autoras.

Obs¹:A PNAD não foi realizada no ano de 2000.

Obs²:Em 2004 passa a comtemplar a população rural de Roirama,Rondonia,Acre,Amazonas,Pará e Amapá.

 

GRÁFICO 3

Evolução nas taxa líquida de escolarização, por sexo e cor/raça – Brasil, 1995 a 2009 (Elaborado por IPEA)

 

 

É importante ressaltar que, apesar do crescimento do ingresso de mulheres negras nas IES (Instituição de Ensino Superior), ainda há uma elevada disparidade educacional em relação a esse ingresso, permanência e conclusão. Homens e mulheres brancas ainda estão em número superior aos homens e mulheres negras. (Gráfico 4)

 

 

GRÁFICO 4

 

Por ora, é necessário investigar esses diferentes grupos sociais, juntamente com o crescimento das ofertas e levando-se em consideração as estruturas institucionais e administrativas das universidades, juntamente com a estrutura social desses grupos.

 

 

 

 

 

 

 

3.2. Beleza negra: uma questão de identidade.

Há muito tempo, a mulher negra seguiu padrões ditados pelo pensamento eurocêntrico de beleza. A mulher negra sempre foi objeto de desejo sexual, contudo nunca foi um modelo de beleza a ser seguido. Esses padrões vão desde as formas físicas (corpo, traços faciais, cabelo etc) ao mental e espiritual.

Cabelos lisos, faces rosadas, nariz finos sempre foram o ideal artístico, tanto na literatura quanto na arte. Mulheres negras, apesar de se reconhecerem entre suas semelhantes todos os dias, não se viam como mulheres belas. A militância política e social havia começado na década de 20, contudo a militância interior para combater esses padrões seguia o mesmo trajeto?

A beleza negra era pautada em suas semelhanças ao ideal de beleza branco. Via- se então a tentativa das mulheres negras de chegarem ao máximo dessa “perfeição”.

Figura 9:Ruth de Souza:primeira grande atriz dramática brasileira.Fonte :Jornal O Quilombo: vida, problemas e aspirações do negro. Rio de Janeiro, ano I, n. 4, jul. 1949. 12p.

Figura 10:Mercedes Batista,a primeira bailarina “de cor” a entrar para o Corpo de baile do Teatro Municipal.Fonte: O Quilombo: vida, problemas e aspirações do negro. Rio de Janeiro, ano II, n. 7-8, março-abril de 1950. 12 p.

Havia também a militância em prol da promoção da beleza negra, como concursos e chamadas para desfiles.

Figura 11:Fonte :Jornal O Quilombo: vida, problemas e aspirações do negro. Rio de Janeiro, ano II, n. 9, mai. 1950. 12 p.

Apesar das tentativas, havia algo que faltava que era estabilizar o interior para exaltar o exterior. A mulher negra precisava se reconhecer como negra, afirmar e legitimar suas origens, assumir sua identidade. Tal reconhecimento ganhou força no séc XXI, a partir de 2003, quando as políticas afirmativas começaram a fazer parte do escopo social brasileiro. Atualmente, é comum se ver mulheres negras assumindo suas características, usando seu cabelo sem química, usando turbantes em referência a sua ancestralidade africana. Como a atriz Sheron Menezes[21]:

Figura 12: Sheron Menezzes(atriz).Autor :desconhecido.Fonte:site Metrojornal

A estudante de moda Anastásia Gabriel[22]:

Figura 13: Foto: Fábio Guimarães.Aluna de moda Anastásia Gabriel.Fonte:site o extraonline.

A beleza da mulher negra passou a ser exaltada. Agora existem salões de cabelos, não para alisar, mas para tratamento dos fios diferenciados das mulheres negras, existe maquiagem para o tom de pele negro, acessórios ligados à ancestralidade da mulher negra, o que contribui para a maior promoção dessa beleza.

A beleza da mulher negra passa então de um “não lugar” para um lugar de destaque, o que para muitos causa um estranhamento, desconforto, de fato, um incômodo. E assim a mulher passa a ser novamente hostilizada pela classe opressora. Manifestações racistas em redes sociais, em meios de comunicação, referentes às mulheres negras é o resultado desse incômodo gerado pelo poder da mulher negra de não se render aos parâmetros brancos da sociedade brasileira.

3.3. A mulher negra nas redes de comunicação social: ataques

Atualmente, os maiores ataques às mulheres negras têm ocorrido nas redes de comunicação social. Quanto maior a visibilidade, a beleza e a ascensão da mulher negra, maiores os ataques. Artistas como Thaís Araujo[23], Sheron Menezes, Cris Viana, a cantora Ludmmila, a repórter Maria Julia Coutinho, são algumas das celebridades negras que foram atacadas em redes sociais devido ao seu lugar de destaque.

Figura 14:Foto:Reprodução do facebook.

A atriz associou os ataques ao incômodo que uma mulher negra bem sucedida, bem resolvida e bela pode causar em uma sociedade essencialmente racista.

É muito chato, em 2015, ainda ter que falar sobre isso, mas não podemos nos calar. Na última noite, recebo uma série de ataques racistas na minha página. Absolutamente, tudo está registrado e será enviado à Polícia Federal. Eu não vou apagar nenhum desses comentários. Faço questão que todos sintam o mesmo que eu senti: a vergonha de ainda ter gente covarde e pequena neste país, além do sentimento de pena dessa gente tão pobre de espírito. Não vou me intimidar, tampouco abaixar a cabeça.

Sigo o que sei fazer de melhor: trabalhar. Se a minha imagem ou a imagem da minha família te incomoda, o problema é exclusivamente seu! Por ironia do destino ou não, isso ocorreu no momento em que eu estava no palco do teatro Faap com o “Topo da Montanha”, um texto sobre ninguém  menos que Martin Luther King e que fala justamente sobre afeto, tolerância e igualdade. Aproveito pra convidar você, pequeno covarde, a ver e ouvir o que temos a dizer. Acho que você está precisando ouvir algumas coisinhas sobre amor.

Agradeço aos milhares que vieram dar apoio, denunciaram comigo esses perfis e mostraram ao mundo que qualquer forma de preconceito é cafona e criminosa. E quero que esse episódio sirva de exemplo: sempre que você encontrar qualquer forma de discriminação, denuncie. Não se cale, mostre que você não tem vergonha de ser o que é e continue incomodando os covardes. Só assim vamos construir um Brasil mais civilizado. A minha única resposta pra isso é o amor!

Episódio semelhante aconteceu com a jornalista da Rede Globo, Maria Julia Coutinho[24]. Ofensas referentes a sua etnia foram escritas em sua rede social no ápice de sua carreira no jornal de maior visibilidade da emissora.

Figura 15:Foto:Reprodução do Facebook.

Os casos, segundo a polícia, seguem a mesma linha criminal: são grupos com perfis fakes que utilizam internet para fazer ataques racistas às mulheres negras ou outras minorias. Eles utilizam as redes sociais por acharem ser uma “terra de ninguém” e terem quase certeza da impunidade.

CAPÍTULO 4

O RACISMO POR TRÁS DO DISCURSO

4.1. Uma questão de discurso

O racismo reproduzido, principalmente, nas redes sociais se efetiva por meio dos discursos. O discurso é mais do que apenas o uso da linguagem: é uma prática social, de representação e significação do mundo, formada pelo social (Magalhães, 2001.p 17).

O discurso faz parte do cerne social, pois é uma das maneiras pela qual o individuo, como ser social, externa suas opiniões, crenças e ideologias sobre o mundo e sobre os outros.

É necessário compreendermos a organização do discurso dentro da sociedade. Segundo Célia Magalhães (2001), a prática discursiva envolve os processos de produção, distribuição e o consumo de textos, podendo ser expressa enquanto textos escritos ou falados ou enquanto elementos semióticos. Essas práticas discursivas podem ser utilizadas em um determinado ambiente – seja ele uma instituição, grupo, ou mesmo a sociedade – e as relações de complementaridade, inclusão/exclusão ou oposição entre essas.

O discurso exerce uma falsa relação de poder onde o indivíduo social opressor o utiliza para influenciar o indivíduo social oprimido. Esse controle mental exercido pode se dar através dos discursos nas esferas educacionais, políticas e principalmente midiáticas. Pode se definir essa dominação discursiva como “[…] o controle comunicativo do conhecimento, crenças e opiniões daqueles que possuem poucos recursos e fontes alternativos para se opor a tal influência” (VAN DIJK, 1993, p. 101).

Segundo o autor, racismo é uma forma de dominação baseada em diferenças físicas específicas (principalmente cor da pele) que podem ser mínimas ou mesmo inexistentes, mas que são socialmente construídas na definição de grupos.

O discurso racista pode ser, segundo o mesmo, dividido em duas esferas: discurso racista dirigido ao outro etnicamente diferente, o que implica a interação do grupo opressor sobre o grupo oprimido e o discurso racista sobre o outro, em que o foco principal é a persuasão intra- grupo, ou seja, a disseminação de crenças e valores ligados ao grupo oprimido que compõem as bases ideológicas e sócio-cognitivas e permitem a manutenção do sistema de dominação racista de um grupo sobre outro.

Nas redes sociais, são praticados os dois tipos de discursos, sendo que um diretamente feito pelos indivíduos do grupo opressor, diretamente nas redes sociais do alvo oprimido, conforme as ocorrências citadas anteriormente. E o outro, segundo as investigações policiais, são grupos organizados que pregam valores e crenças racistas e agem articuladamente, com data, hora e alvo determinados.

Analisaremos a seguir alguns discursos utilizados como forma de opressão das mulheres negras citadas ao decorrer desse trabalho.

4.2. Análise Crítica dos discursos racistas as mulheres negras.

Os discursos utilizados abaixo são diretos, fazendo parte do discurso racista dirigido ao outro etnicamente diferente, segundo Van Dijk. Em sua visão, podemos dividir a estrutura das linguagens utilizadas em superficial, – formas de linguagem que podemos ver ou ouvir, como sons, gestos, letras, imagens e palavras – e estruturas subjacentes ou profundas – associadas com sentido, interação, e fenômenos cognitivos. As estruturas profundas, que correspondem ao significado do discurso, são expressas nas estruturas superficiais, que as codificam, e essas relações devem ser explicitadas pela análise crítica do discurso. Além disso, as propriedades discursivas sempre devem ser analisadas em suas relações mútuas e em relação aos seus contextos socioculturais específicos.

Segundo a analogia do autor, os discursos são como icebergs, a grande parte das implicações permanecem implícitas no discurso e necessitam ser explicitadas e analisadas criticamente. Observemos os discursos abaixo:

“Menina, deixe de estudar e vá aprender a fazer feijoada na casa dos brancos”.(Professor de Luislinda Valois)

O discurso implícito na fala do professor infere que aquele lugar de estudo não é adequado para Luislinda, que ali ela não chegaria a lugar algum. Além disso, ele faz referência à época da escravidão, quando cita uma comida típica portuguesa que foi disseminada nos países lusófonos e que ganhou versão diferenciada no Brasil na época da escravidão, utilizando feijão preto e diferentes cortes de carne que eram servidos aos senhores de escravos, implícito no discurso como “casa dos brancos”. Com isso, inferindo que a mesma deveria aprender a cozinhar para trabalhar em casa de família, que nesse caso só poderia ser a família de brancos.

O uso dos verbos “Deixe e Vá” no presente do subjuntivo em primeira pessoa, que são utilizados em contexto similar ao modo imperativo, incita a segunda pessoa do discurso à ação ou a uma ordem. No caso do discurso acima, é uma ordem para que ela (Luislinda) faça algo que ele (Professor), ideologicamente, acredita ser o certo.

2)“Precisamos limpar o Colégio Paulo de Frontin, retirando a única negra que passou nest, concurso” (Alunos da escola Paulo de Frontin se referindo a Vanda a única aluna negra da escola. )

O discurso de um grupo de alunos, primeiramente, demonstra implícita, a ideia de sujeira relacionada à etnia negra, corroborando a ideia do sanitarismo e higienização da cidade do Rio de Janeiro na reforma Pereira Passos. Ainda utiliza estratégia argumentativa de contraste, baseia-se na auto apresentação positiva (“limpadores”) e na representação negativa do outro “única negra” (sujeira da escola). Além disso, a expressão “única negra” carrega semanticamente a ideia de que se essa “única negra” não for “limpa”, ou seja, rechaçada da escola, ela não será mais “única”, outras virão.

“ Eu não sabia que pra fazer papel de empregada precisava de curso”(Vizinha da Zezé Motta)

A vizinha da atriz Zezé Motta deixa claro em seu discurso que o único papel que ela poderia fazer na televisão era de empregada doméstica, pelo único e simples fato de ela ser negra. Ademais, menosprezou a profissão de empregada doméstica por achar, pelo seu conhecimento de mundo, que é uma profissão simples e que não necessita de qualificações.

“Não deixa aquela neguinha chegar perto de mim” (Presidente Figueiredo à repórter Gloria Maria)

Ao ordenar o afastamento físico da repórter, o presidente usou o termo “neguinha”, utilizando o sufixo –inho que é sufixo formador do diminutivo que se acresce do substantivo para apresentar algum valor. Neste caso, ele foi utilizado de forma pejorativa para menosprezar o status da repórter, reportando-se a ela por “neguinha”, fazendo referência a sua cor da pele.

“Cabelo de lavar louça kkkkkkk, esponjaço kkkkkkk” (Dirigido à atriz Thaís Araujo por Gustavo Soares: perfil fake)

Uma das agressões sofridas pela atriz Thaís Araújo, usa a metáfora “Cabelo de lavar louça” e “Esponjaço”, fazendo alusão ao cabelo crespo da atriz ser semelhante à esponja de aço utilizada para lavar louça. Estereotipando o perfil de todas as mulheres negras.

“Só conseguiu emprego no JN por causa das cotas preta imunda” (Dirigido à jornalista Maria Julia Coutinho por Thiago San Monteiro: Perfil fake)

Um dos discursos usados para agredir a jornalista Maria Julia Coutinho diminui suas qualificações, fazendo referência à entrada da jornalista na grade do horário nobre como uma beneficiada pelas cotas raciais instituídas para o ingresso de estudantes em algumas instituições públicas de ensino e de profissionais em alguns concursos públicos.

Além disso, ele relaciona a etnia negra, a cor negra à ideia de sujeira “preta imunda”.

Quem essa neguinha pensa que é? (Tema do trabalho)

Esse discurso, uma fórmula discursiva, apesar de não ter sido dito diretamente, foi indiretamente referenciado a mim através de muitos olhares na minha vida profissional. Após ter recebido uma promoção e ficar em posição de comando, muitos colegas de trabalho me olharam com esse discurso e falaram através de atos o que não poderiam exprimir com palavras.

Segundo Karl Bühler, a linguagem tem três funções primordiais: representação, expressão e apelo. A representação opera linearmente no eixo sintagmático, a expressão é a exteriorização psíquica de nossos anseios e sentimentos e o apelo é o meio pelo qual exercemos essa influência sobre os interlocutores. Os discursos de cunho racista têm, a priori, funções linguísticas expressivas e apelativas, onde de forma negativa, buscam desestabilizar a coesão da mulher negra no cenário atual.

CAPÍTULO 5

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apesar de tantos avanços positivos nas relações familiares e societárias, de tantas conquistas constatáveis neste século XXI, pode-se considerar que a mulher negra como parte da sociedade, coexistindo igualitariamente, ainda fere aos anseios de um Brasil racista, que associa a cor da pele e o gênero ao patamar social a ser alcançado.

Apesar desses anseios, percebe- se também a força da mulher negra que vem crescendo a passos largos, através de movimentos e coletivos que abordam desde leis trabalhistas das empregadas domésticas à desconstrução estética pautada pela sociedade branca.

Nas universidades, nota-se também um grande aumento de mulheres negras, contudo ainda restritas a cursos considerados menos prestigiosos, sendo ainda hoje, difícil encontrar um número expressivo de médicas, arquitetas, engenheiras, advogadas negras. Temos ainda a representatividade política que não está em igualdade com nenhum outro grupo da sociedade, ou seja, não temos contingente parlamentar que represente a mulher negra e que mova políticas afirmativas de apoio, promoção e ascensão a este grupo.

Apesar disso, temos uma militância constante, as mulheres negras ainda não alcançaram seu lugar na sociedade, contudo saímos do lugar comum, o que gera muito incômodo, o próximo passo é a aceitação. A sociedade precisa aceitar que somos parte dela e temos, apesar de desiguais, direitos iguais. Ainda há um longo caminho a ser seguido. Contudo a submissão da mulher negra a todas as imposições da ditadura da branquitude está na fase final.

A mulher negra, apesar de ser arrimo de família, ter sua integridade desfeita todos os dias nas “casas de família”, de ter que matar um leão por dia nas universidades, tendo que lidar com o preconceito dos alunos e até mesmo de certos professores, de ter que provar mais vezes sua competência para alcançar um lugar de destaque, hoje ela pode se enxergar fazendo parte de um grupo da sociedade.

A mulher negra não quer ser mais vista como a Mulata de Carnaval, como a Bertoleza de Aluizio de Azevedo, como a Nega Maluca. A mulher negra não quer só ser lembrada por seus dotes culinários, por sua bela faxina, por seu molejo contagiante ou “ancas largas”. A mulher negra anseia por mais, já não há espaço em seu ego para frustrações, ditaduras e chapinhas, todo o negativo transborda agora em positivo e SIM! Seremos mulheres negras sim, nas universidades, nos hospitais, nas mídias em todos os locais comuns da sociedade. Se o incômodo é diretamente proporcional ao poder da mulher negra, sugiro que se mudem, pois estamos chegando e com muita força.

O trabalho exposto acima foi resultado de um questionamento feito por mim ao sofrer, a meu ver, um racismo indireto. Digo indireto, por que não foi explicitamente falado, contudo implicitamente demonstrado pelos olhares e revelado pelas atitudes.

Há dois anos, fui convidada pela diretora do colégio no qual eu lecionava desde que entrei na Rede Municipal, a ocupar o cargo de coordenação. Era professora, contudo atuava em cargo de confiança como orientadora pedagógica. Minha relação tanto com os professores como os funcionários em geral sempre foi amistosa e com alguns tinha até amizade fora dela. Contudo, tudo mudou depois que aceitei o cargo de coordenação. Uma professora, simplesmente, saiu da escola, recusei-me a acreditar que fosse por esse fato, talvez ela tivesse ficado chateada pelo fato de não ter sido escolhida, pois ficava o dia todo na escola e trabalhava há mais tempo que eu. Fui percebendo que algumas atitudes iam além de simples atos de inveja. Professores e funcionários que não demonstravam respeito pelos ordenamentos da diretora, pelo simples fato da minha pessoa ser a interlocutora. Na época, a diretora percebeu essas pequenas demonstrações de insubordinação e muitas vezes explicitou em reunião pedagógica que havia hierarquia e que na ausência dela seriam seguidas as minhas ordens ou da outra coordenadora. Pensei que depois dessa explicação não haveria mais problemas. Mas alguns funcionários passaram a se dirigir a outra coordenadora para questionar sobre assuntos que eu deveria ordenar. A mesma, notando a situação, respondia que o assunto era comigo. Somente em última instância eles recorriam ou solicitavam algo a mim. Antes, eram pessoas que conviviam, brincavam, saiam comigo, mas que não admitiam receber ordens minhas, não admitiam que eu estivesse no grau hierárquico maior. O problema do racismo é quando o sentimento implícito se transforma em raiva e se explicita em atitudes. No meu caso, tentaram sabotar meu trabalho, me prejudicando de varias maneiras. Poderia ter ficado e os feitos engolir a minha presença, contudo toda a guerra é feita de batalhas e às vezes é necessário perder algumas para conquistar a vitória no final. E foi assim que saí. No final do ano, pedi minha remoção da escola e repensei o tema do meu trabalho que até então era sobre o racismo em sala de aula e agora é esse que vos apresento. A guerra não terminou. Ao contrário, é com essas páginas que algumas mulheres, futuramente, escreverão a sua história e essa, sim, é uma parte da grande vitória que ainda está por vir.

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[1] Lélia Gonzalez citada por Luiza Bairros, 2000,p. 57.

[2] Pela aforização ,o locutor –que podemos chamar de aforizador –se põe acima das restrições específicas desse ou daquele gênero de discurso.Ele assume o ethos de um locutor que fala do alto,um indivíduo que entra em contato com uma fonte transcendente;ele não se dirige a um interlocutor que esta no mesmo plano que ele e poderia responder,mas a um auditório universal.Ele supostamente enuncia a sua verdade,subtraída qualquer negociação exprime uma totalidade vivida:seja uma doutrina ou uma certa concepção da existência. Nesse regime enunciativo, o sujeito da enunciação e o Sujeito no sentido jurídico e moral coincidem: alguém se põe como responsável, afirma valores e princípios diante de uma comunidade.

[3] DOU de 12 do 12 de 1972-1° da lei n° 5859/72,onde assim definia o empregado doméstico.Revogada pela Leo complementar n°150 de 2015.

[4] A Escola dos Annales foi um movimento de renovação da historiografia iniciado na França do final da década de 1920, com a fundação, por Marc Bloch e Lucien Febvre,onde o novo modelo pretendia em substituir as visões breves anteriores por análises de processos de longa duração com a finalidade de permitir maior e melhor compreensão das civilizações das “mentalidades”.

[5] A Nova História é a história sob a influência das ciências sociais que realizou uma revolução epistemológica quanto ao conceito de tempo histórico. “Os historiadores tradicionais pensam na história como essencialmente uma narrativa dos acontecimentos, enquanto a nova história está mais preocupada com a análise das estruturas.” (BURKE: 1992 p.12). A nova história não estuda épocas, mas estruturas particulares. Considerando questões de gêneros em seus estudos sociais.

[6] Foi uma das principais articulistas do periódico Quilombo, assinando a coluna Fala Mulher. Estimulou a participação política das mulheres negras e lutou pela regulamentação do trabalho feminino, no que dizia respeito a salários,carteira assinada,jornada de trabalho e sindicalização.Maria Nascimento foi responsável pela criação, em 1950, do Conselho Nacional de Mulheres Negras, que possuía um departamento jurídico dedicado a população negra em necessidades básicas ,como obtenção de certidão de nascimento.Defendia a realização de estudos sobre os direito a das empregadas domésticas e os transtornos psico- sociai causados pela prostituição. A sua coluna conclamava as mulheres negras a lutarem contra o racismo, e realizava críticas sociais em caráter de reivindicação,denuncia e aconselhamento.

[7] No contexto do pós-abolição, homens e mulheres negros se organizaram coletivamente de variadas formas, no combate à discriminação racial e em busca de maiores chances de ascensão econômica e social. Naquele período, intensificou-se a produção de jornais e revistas por parte desse grupo, que no seu conjunto ficaram conhecidos como a Imprensa Negra Paulista. Nas duas primeiras décadas do século XX, a maior parte dos periódicos foram elaborados por associações que atuavam como grêmios recreativos, clubes dançantes, esportivos, dramáticos, literários ou carnavalescos. Dessa forma, boa parte desses noticiosos tinha como principal finalidade tratar de assuntos relacionados à vida social dos associados e da população negra em geral. Ao longo dos anos, cresceu também a preocupação dos grupos que dirigiam esses veículos em denunciar as restrições sociais sofridas pela população negra, traduzidas na diferença de tratamento e de acesso a oportunidades por causa do preconceito de cor.

[8]Depoimento Luislinda Valois- Viver a Vida – 05/05.Fonte do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=bAhGu8utIkc. Entrevista extraída do blog: http://jornalconexaoafro.blogspot.com.br/2011_07_01_archive.html. Acesso em:05/04/2016.

[9] Depoimento de Vanda Maria de Souza – Fonte: Livro Mulheres Incríveis. Elaine Gomes.2.ed.Rio de Janeiro:Edital,2014

[10] Depoimento da Atriz Zezé Motta – Fonte: Livro Mulheres Incríveis. Elaine Gomes.2.ed.Rio de Janeiro:Edital,2014

[11] Depoimentos concedidos ao Memória Globo por Glória Maria em 24/08/2000 e 09/11/2010.- Fonte: http://memoriaglobo.globo.com/perfis/talentos/gloria-maria/trajetoria.htm- acesso em:07/05/2016

[12] ( Yzalú interpreta música composta por Eduardo -Facção central-, Mulheres Negras.Fonte do Vídeo : https://www.youtube.com/watch?v=ZLofi1VDeWU. Acesso em 10/5 /2016.

[13] Extraído de http://antigo.acordacultura.org.br/herois/heroi/antonietadebarros acesso em 16/6/2016. Figura1: Disponível em < http://www.afreaka.com.br/notas/antonieta-de-barros-protagonista-de-uma-mudanca/> acesso em 16/06/2016.

[14] Extraído de : http://primeirosnegros.blogspot.com.br/2014/07/laelia-de-alcantara-1-negra-ocupar.html. Acesso em 14/06/2016).Figura 2:Disponível em < http://primeirosnegros.blogspot.com.br/2014/07/laelia-de-alcantara-1-negra-ocupar.html> Acesso em 16/06/2016

[15] Extraído de : https://pt.wikipedia.org/wiki/Nilma_Lino_Gomes. Acesso em :16/06/2016. Figura 3: Disponível: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Nilma_Lino_Gomes>Acesso em 16/06/2016.

[16] (Disponível em: http://remanescentestiaciata.blogspot.com.br/2011/03/guerreira-mulher-chamada-vanda-ferreira.html. Acesso em:20/06/2016). Figura 4: Disponível em < disponível: http://premioabdiasnascimento.org.br/w/noticias?start=5.> Acesso em 17/06/2016

[17] Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Luislinda_Valois. Acesso em: 22/06/2016.Figura 5 : Disponível em < http://www.geledes.org.br/tag/luislinda-valois/> Acesso em 22/06/2016.

[18] Disponível em: http://www.rankbrasil.com.br/Recordes/Materias/0WIQ/Primeira_Negra_A_Ocupar_Cargos_De_Senadora_E_Governadora. Acesso em: 22/06/2016).Figura 6: Disponível em<https://twitter.com/blogdabenedita. Acesso em:22/06/2016> Acesso 22/06/2016.

[19] Disponível em : http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/bruno-astuto/noticia/2015/11/ruth-de-souza-lanca-livro-no-dia-da-consciencia-negra-o-preconceito-ainda-existe.html. Acesso em 25/06/2016).Figura 7: Disponível em : http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/bruno-astuto/noticia/2015/11/ruth-de-souza-lanca-livro-no-dia-da-consciencia-negra-o-preconceito-ainda-existe.html.Acesso em 22/06/2016.

[20] Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gl%C3%B3ria_Maria. Acesso em 25/06/2016 .Figura 8: Disponível em <http://gente.ig.com.br/gloriamaria/>Acesso em 22/06/2016.

[21] .Figura 12:Disponível em:<http://culturaediversao.metrojornal.com.br/2015/12/07/sheron-menezzes-e-alvo-de-ataques-racistas/> Acesso em 22/06/2016

[22] Figura 13: Disponível em:<http://extra.globo.com/mulher/moda/semana-da-consciencia-negra-turbantes-invadem-moda-sem-dispensar-tradicoes-africanas-14561037.html >.Acesso em 14/06/2016

[23] Figura 14: Ataques na mídia social à atriz Thais Araujo. Disponível em:<http://entretenimento.r7.com/blogs/odair-braz-jr/noticias/tais-araujo-sofre-ataque-racista-na-internet-01-11-2015/>.Acesso em 26/06/2016.

[24] Figura 15: Disponivel em:<http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/bruno-astuto/noticia/2015/07/gloria-maria-sai-em-defesa-de-maju-em-caso-de-ataques-racista.html>.Acesso em 27/06/2016.

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